⚡ Em resumo (30 segundos)
- Em 2025, 57,1% dos adultos em Portugal disseram ter excesso de peso, e 17,4% obesidade — cerca de 1,7 milhões de pessoas. Quando o peso é medido (e não declarado), os números costumam ser mais altos.
- A obesidade é uma doença crónica com várias causas: biologia, ambiente, contexto social e hábitos. Reduzi-la a «falta de força de vontade» está errado e afasta as pessoas da ajuda.
- Sozinho, o exercício faz descer pouco o peso. Mas reduz a gordura abdominal, melhora a força e o fôlego e, com a alimentação ajustada, ajuda a perder mais gordura e menos músculo.
- O ponto de partida recomendado: mexer-te todos os dias, somar 150 a 300 minutos de atividade por semana e fazer treino de força 2 vezes. E medir mais do que a balança.
Nos últimos dias, a série «Obesidade em Portugal» no Instagram mostrou os números, as causas e porque é que o ginásio também é de quem vive com obesidade. Este artigo junta tudo num só sítio, com mais contexto, as fontes completas e uma pergunta que ouço muitas vezes: «Se eu começar a treinar, quanto peso vou perder?»
A resposta honesta é menos espetacular do que a publicidade promete — e muito mais interessante. Porque o exercício faz muito pela saúde de quem vive com excesso de peso, mesmo quando a balança quase não mexe.
Vamos por partes: o que dizem os números de Portugal, porque é que a obesidade não tem uma causa única, o que o exercício faz (e o que não faz) e como começar de forma segura e sem culpa.
Os números de Portugal em 2025
O Inquérito Nacional de Saúde do INE, feito no fim de 2025 e divulgado em junho de 2026, dá-nos o retrato mais recente. As pessoas indicaram o seu peso e altura, e a partir daí calculou-se o índice de massa corporal (IMC).
Em 2014, a proporção de adultos com excesso de peso era de 52,8%; em 2025, chegou aos 57,1%. A obesidade é mais frequente nas mulheres (19,5% contra 15,2% nos homens), enquanto a pré-obesidade é mais comum nos homens. Por região, os Açores têm o valor mais alto (26,6%) e o Norte o mais baixo (14,8%). Para comparação, a média da União Europeia de adultos com excesso de peso em 2025 foi de 51,7% — uma comparação indicativa, porque os inquéritos não são iguais em todos os países.
A idade também conta. A obesidade sobe de forma clara até aos 55–64 anos e só depois começa a descer:
Adultos com obesidade (IMC ≥ 30) por grupo etário, em Portugal, 2025. Fonte: INE, Inquérito Nacional de Saúde 2025 (peso e altura declarados pelos participantes).
Declarado ou medido? Os números reais são provavelmente mais altos
Há um detalhe que poucas notícias explicam: nos inquéritos do INE, cada pessoa diz quanto pesa e quanto mede. E quase toda a gente se descreve um pouco mais alta e mais leve do que é. Quando o peso e a altura são medidos por técnicos, os valores sobem:
| Estudo | Como foi feito | Obesidade |
|---|---|---|
| INSEF 2015 (INSA) | Peso e altura medidos · adultos dos 25 aos 74 anos | 28,7% |
| IAN-AF 2015–2016 | Medidos · adultos 18–64 anos / 65–84 anos | 21,6% / 39,2% |
| INS 2025 (INE) | Declarados · adultos com 18 ou mais anos | 17,4% |
Os estudos são de anos e idades diferentes, por isso não dá para os comparar ao milímetro. Mas a mensagem é consistente: a obesidade em Portugal é pelo menos tão frequente quanto os números oficiais mais recentes sugerem. No IAN-AF, metade dos adultos (50,5%) tinha ainda obesidade abdominal — gordura acumulada na zona da barriga, que é a que mais se associa a doenças metabólicas e cardiovasculares.
Obesidade não tem uma causa única
A Organização Mundial da Saúde descreve a obesidade como uma doença crónica, resultado da interação de vários fatores. Não é um defeito de carácter, nem uma questão de preguiça.
Biológicos
Genética, regulação do apetite e da saciedade, alterações hormonais e metabólicas, alguns medicamentos. Duas pessoas com os mesmos hábitos podem ter pesos muito diferentes.
Comportamentais
O que se come, quanto, quanto nos mexemos e como dormimos. São os fatores mais falados — e os únicos sobre os quais temos algum controlo direto.
Ambientais
Acesso a comida saudável a preço razoável, bairros com passeios e espaços seguros para caminhar, transportes, publicidade alimentar.
Sociais
Rendimento, horários de trabalho, stress, apoio familiar. Em Portugal, a desigualdade vê-se nos números: no IAN-AF, a obesidade era de 38,3% nas pessoas com menos escolaridade e de 13,1% nas pessoas com ensino superior.
Há ainda um fator que costuma ficar de fora: o movimento. No inquérito do INE de 2025, só 43,4% das pessoas com 15 ou mais anos faziam exercício pelo menos uma vez por semana. E no Eurobarómetro de 2022, 73% dos portugueses disseram nunca fazer exercício nem praticar desporto — o valor mais alto da União Europeia.
O que o exercício faz — e o que não faz
Aqui é preciso ser honesto, porque é onde se criam mais frustrações. Vale a pena separar o que a ciência mostra do que o marketing vende.
Nem sempre. Segundo a posição do American College of Sports Medicine, 150 a 250 minutos de atividade moderada por semana dão uma perda de peso modesta. Perdas maiores aparecem com mais de 250 minutos semanais ou, sobretudo, quando o exercício se junta a ajustes na alimentação. O exercício não compensa sozinho tudo o resto.
Falso. Uma meta-análise de 117 estudos mostrou que o exercício reduz a gordura visceral (a que envolve os órgãos) mesmo sem perda de peso: cerca de 6% menos, enquanto a dieta sem perda de peso praticamente não a alterou. Noutra revisão, de 25 ensaios, o treino aeróbio reduziu a cintura em 3,2 cm, em média, em adultos com excesso de peso ou obesidade.
Falso. Numa revisão de 2025 com pessoas a fazer dieta, juntar treino de força não mudou o peso perdido, mas aumentou a gordura perdida (certeza elevada) e protegeu a massa magra (certeza moderada). Ou seja: o mesmo número na balança, com uma composição corporal melhor e mais força.
Falso. Uma meta-análise de 10 estudos com a condição física medida em laboratório mostrou que as pessoas com pouca aptidão cardiorrespiratória tinham cerca do dobro do risco de mortalidade, qualquer que fosse o peso. E as pessoas com excesso de peso ou obesidade, mas com boa condição física, tinham um risco semelhante ao das pessoas com peso normal e boa condição física. São estudos observacionais (mostram associação, não causa), mas a mensagem é clara: o fôlego conta, e muito.
Quanto e como: o ponto de partida
As recomendações da OMS para adultos — incluindo pessoas com doenças crónicas — são o melhor ponto de partida. A diferença está em como lá chegar: aos poucos, a partir do sítio onde estás hoje.
O PONTO DE PARTIDA
Começa onde as articulações estão confortáveis
Caminhar, bicicleta, máquinas de remo ou elíptica, hidroginástica. Se os joelhos ou a anca se queixam, menos impacto não é menos treino — é treino inteligente.
Prefere exercícios estáveis no início
Máquinas, agachamento para um banco, remada com apoio, elevação da anca no chão. Dão segurança, permitem progredir na carga e constroem a confiança para exercícios mais livres.
Usa a intensidade a teu favor, com calma
Na revisão sobre a cintura, o treino mais vigoroso reduziu um pouco mais o perímetro abdominal do que o moderado. Mas a intensidade vem depois da regularidade: primeiro aparecer, depois apertar.
Pensa em meses, não em semanas
Os benefícios na força e no fôlego notam-se cedo. As mudanças na cintura e na composição corporal pedem mais tempo. A consistência ganha sempre ao plano perfeito que dura 15 dias.
Mede mais do que a balança
O IMC é útil para estudar populações, mas diz pouco sobre ti: vê peso e altura, não vê músculo, gordura, fôlego nem força. Para acompanhar o progresso, junta outros indicadores:
O que vale a pena registar
- Perímetro da cintura. Uma fita métrica, à altura do umbigo, uma vez por mês. Como referência, a OMS associa risco aumentado a valores a partir de 88 cm nas mulheres e 102 cm nos homens.
- Força. Quantas vezes te levantas de uma cadeira em 30 segundos, ou que carga usas num exercício base.
- Fôlego. Quanto tempo caminhas sem parar, ou se sobes as escadas de casa sem ficar ofegante.
- Energia e sono. Como acordas, como chegas ao fim do dia.
- Análises e tensão arterial. Glicemia, colesterol e tensão melhoram muitas vezes antes de o peso mudar — fala com o teu médico sobre isso.
O ginásio também é teu
Há um obstáculo que não aparece nos planos de treino: o olhar dos outros. Num inquérito a quase 14 000 adultos de 6 países, mais de metade disse já ter sido julgado pelo peso — e quem passou por isso evitava mais o ginásio.
Se te revês nisto, não estás sozinho. Algumas estratégias ajudam: escolher horas mais calmas, começar pelas máquinas, levar alguém contigo ou pedir acompanhamento ao teu ritmo. E se já treinas: não comentes corpos, não dês conselhos que ninguém pediu, cumprimenta e partilha o equipamento. Um ginásio melhor faz-se de pequenas coisas.
E se estiver a fazer medicação para a obesidade?
Os medicamentos como os agonistas do GLP-1 ajudam a comer menos e a perder peso, mas não mudam o quanto te mexes. Com eles, o treino deixa de ser para «queimar calorias» e passa a servir para preservar força, função e fôlego enquanto o corpo muda. Expliquei isto em detalhe no artigo sobre as «canetas emagrecedoras» e a perda de músculo. Qualquer decisão sobre medicação é sempre tomada com o médico que a prescreveu.
Onde entra o acompanhamento
O plano cabe numa caixa. O difícil é ajustá-lo à tua vida real: às articulações que se queixam, aos horários, às semanas em que tudo corre mal, e à vontade de desistir quando a balança não colabora.
No meu trabalho, começo por perceber o ponto de partida — sem julgamentos — e construo um plano simples, com exercícios que te dão confiança, uma progressão controlada e indicadores de progresso que vão além do peso. Quando faz sentido, articulado com o teu médico ou nutricionista.
Perguntas frequentes
O que é melhor para perder gordura: cardio ou treino de força?+
Os dois, e por razões diferentes. O treino aeróbio ajuda a reduzir a cintura e a gordura visceral e melhora o fôlego. O treino de força protege a massa magra, aumenta a força e, com a alimentação ajustada, faz com que mais do peso perdido seja gordura. As recomendações da OMS pedem ambos.
Quanto peso vou perder só com exercício?+
Normalmente pouco, se a alimentação não mudar. Por isso, o melhor objetivo das primeiras semanas não é um número na balança: é treinar com regularidade, ganhar força e fôlego e ver a cintura a descer aos poucos.
Tenho dores nos joelhos. Posso fazer exercício?+
Na maioria dos casos, sim — e o treino de força é muitas vezes parte da solução. Começa com exercícios de baixo impacto e amplitudes confortáveis. Se a dor for intensa, recente ou piorar com o treino, procura avaliação médica ou de fisioterapia.
O IMC serve para alguma coisa?+
Serve para estudar populações e como primeiro sinal de alerta. Mas, individualmente, deve ser combinado com o perímetro da cintura, a avaliação clínica e outros indicadores, porque não distingue músculo de gordura nem diz onde a gordura está.
Caminhar chega?+
Caminhar é um excelente começo e conta para os minutos semanais. Para os melhores resultados na saúde e na composição corporal, junta-lhe treino de força 2 vezes por semana.
Conclusão: um treino de cada vez
Mais de metade dos adultos em Portugal tem excesso de peso, e os números estão a subir. A obesidade é uma doença crónica, com muitas causas, e não se resolve com culpa nem com extremos. O exercício não faz milagres na balança, mas faz muito pelo que realmente importa: menos gordura abdominal, mais força, mais fôlego, mais autonomia e menos risco. O número é do país. O próximo passo é teu.
Se conheces alguém que precisa de ler isto, envia-lho.
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Referências e fontes
- Instituto Nacional de Estatística. Inquérito Nacional de Saúde 2025 — Destaque de 24 de junho de 2026. Lisboa: INE; 2026.
- Gaio V, Antunes L, Namorado S, et al. Prevalence of overweight and obesity in Portugal: Results from the First Portuguese Health Examination Survey (INSEF 2015). Obesity Research & Clinical Practice, 2018;12(1):40-50. doi:10.1016/j.orcp.2017.08.002
- Oliveira A, Araújo J, Severo M, et al. Prevalence of general and abdominal obesity in Portugal: comprehensive results from the National Food, Nutrition and Physical Activity Survey 2015–2016. BMC Public Health, 2018;18:614. doi:10.1186/s12889-018-5480-z
- Rito A, et al. Childhood Obesity Surveillance Initiative: COSI Portugal 2022. Lisboa: Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge; 2023.
- Eurostat. Body mass index (BMI) by sex, age and educational attainment level — dados de 2025 (publicados em setembro de 2026).
- Comissão Europeia. Special Eurobarometer 525: Sport and Physical Activity. 2022.
- Organização Mundial da Saúde. Obesity and overweight — ficha informativa (atualizada em outubro de 2026).
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